Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br
DOIS INTERESSANTES DEBATES ocorrem no seio da Ciência História: o primeiro deles refere, exatamente, ao entendimento que se tem da História como ciência; o segundo, diz respeito ao campo de pesquisa da História e as intrigadas relações que se articulam.Quanto à perspectiva de a História vir a ser concebida como ciência, propõe-se o exercício de substituir a História por outros campos do conhecimento humano para se atingir os mesmos resultados que a Ciência Histórica produz. Esta perspectiva, largamente utilizada por Michel Foucault em Arqueologia do Saber, indica a dificuldade que se tem de construir entendimentos sobre o passado fora do campo da Ciência Histórica. E quando se refere à História, deve-se entender que trata-se do passado revelado, como atesta o historiador inglês Keith Jenkins – aquilo que ainda não foi revelado do passado não é História, é, simplesmente, passado.
Sendo o passado o campo de pesquisa da Ciência Histórica, se pergunta: afinal, a História é uma ciência do presente ou do passado? Para Michel Foucault e Paul Veyne, por exemplo, a História é uma construção do presente, que atende as necessidades e interesses do tempo presente. Por esta reflexão, as narrativas históricas não passam de representações do passado. Se forem representações, são subjetividades que atendem a interesses individuais e coletivos, acentuado o entendimento de Jacob Gorender que a historiografia não é ingênua.
Por este raciocínio, pergunta-se: existe a necessidade da História? Como ela participa do entendimento que se constrói na e da contemporaneidade?
Para responder a estes questionamentos tomemos como campo de análise os debates relacionados à diversidade étnico-cultural-racial que vem se desenvolvendo com grande vigor no Brasil nas últimas décadas. Os novos entendimentos que surgiram e surgem com os importantes avanços na historiografia e em disciplinas afins tem alimentado o interesse para “desvendar”, se isto for, de fato, possível, as complexas construções históricas que construíram e constroem o Brasil. Assim, é revelador, por exemplo, o trabalho de Junia Ferreira Furtado, pesquisadora da UFMG, quanto às dinâmicas econômicas do século XVIII em Minas Gerais que mostram como africanos e afros-descendentes assumiram a posição de homens e mulheres de negócio na colônia.
Por este viés, surge uma série de necessidades quanto ao trabalho historiográfico: a primeira delas, em construir novos métodos de análise que supere o reducionismo clássico da leitura do Brasil na perspectiva do entendimento da relação dominador-dominado. Não que este tipo de leitura deva ser, definitivamente, banido, mas que, ao entender a necessidade de se compreender a Diversidade que dá forma ao Brasil, venha ser possível re-significar a História para que torne-se possível emergir novos entendimentos.
Apoiando-se no método foucaultiano apresentado anteriormente, visualiza-se o seguinte entendimento: a urgente necessidade de se dimensionar a relação do re-significar a História do Brasil e do mundo colonizado com as “necessidades” do tempo presente – isto, porque qual outra perspectiva poderia ser utilizada para se alcançar as mudanças necessárias para se entender as Diversidades, marca indelével da formação do Brasil.
Assim, pode-se, finalmente, entender a importância que se tem de questionar as narrativas historiográficas clássicas – aquelas que têm moldado ou induzido nossas compreensões de Brasil. Em seu lugar, que se construa entendimentos que privilegiem a Dignidade Humana, a Liberdade Plena, que seja pautado nas Experiências Humanas e na capacidade inerente a todo ser humano do autogoverno.