quarta-feira, 23 de abril de 2008

VENTOS DO NORTE

Paulo Robério Ferreira Silva
Mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br

A OCUPAÇÃO do atual Estado de Minas Gerais pelos colonizadores de origem européia, muitos a serviço da Coroa outros não, continua sendo tema de muita controvérsia na historiografia brasileira, sobretudo a mineira. A evidente profusão de trabalhos realizados pelos principais centros de pesquisa do Estado, localizados, em sua maior quantidade, na região central, tem tendido a informar que a ocupação do território deu-se, inicialmente, com as bandeiras vicentinas, sendo Fernão Dias o referencial primeiro desta ocupação, ou como convencionou-se chamar pela historiografia clássica, foi este o grande “descobridor” das terras dos Cataguazes – povo nativo predominante nestas plagas.
Por outro lado, outros historiadores advertem, graças a recentes pesquisas e mesmo balizando-se em entendimentos já preconizados por historiadores mais antigos, que a ocupação deste território pelos colonizadores se deu pelo Norte, através da presença de originários da capitania da Bahia – então, o principal centro político, religioso, econômico e militar da colonização portuguesa na América. Neste contexto, pode-se indagar ainda que colonizadores, nativos e africanos, junto com seus descendentes, também vieram de outras capitanias, sobretudo do Nordeste.
No entanto, este embate, ainda não solucionado, originou-se no apagar das luzes do século XVII, quando se intensificava a corrida pelo ouro – fator determinante da criação da Capitania –, como pode ser observado de trecho da carta enviada por D. João de Lencastro, então Governador Geral da Bahia, a Artur de Sá Menezes, Governador do Rio de Janeiro. Nela, a maior autoridade do governo lusitano no Brasil, foi enfático: “me parece advertir a V.S., como seu amigo, que o Rio Verde, o Doce, o Pardo, o das Velhas e as cabeceiras do Espírito Santo estão no distrito da Bahia”. Mais à frente acrescenta: “que de nenhum modo excedam as pessoas que andarem no tal descobrimento das terras que inviolavelmente dever observar”.
Paralelo aos acontecimentos da esfera política lusitana na América, eclode outro, provavelmente, de maior intensidade. As questões ligadas à posse da terra, a arrecadação de tributos, os embates jurisdicionais, chegaram ao ápice com a contenda entre d. Maria Isabel Guedes de Brito, herdeira da sesmaria de Antônio Guedes de Brito – uma das maiores do Brasil, e o então governador das Minas dos Cataguazes, Antônio de Albuquerque Coelho.
Entra em cena uma das figuras mais polêmicas dos anos iniciais das terras das Minas Gerais. Trata-se de Manuel Nunes Viana, procurador de d. Maria Isabel Guedes de Brito, e que possuía residência em um imponente palacete as margens do rio “calindé” (primeira denominação do rio Calindó), no que viria a ser o atual município de Manga.
Ao defender os interesses, tanto de d. Maria Isabel como do governo baiano, Manuel Nunes Viana choca-se diretamente com temíveis forças lusitanas enviadas ao Brasil para administrar as questões do ouro. Num primeiro momento enfrenta D. Antônio de Albuquerque Coelho, que doou ilegalmente terras pertencentes a Bahia a um criado seu, José de Seixas. Depois, depara-se com seu maior adversário: Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar.
Findo que, a advertência não foi considerada, e o conflito de Manuel Nunes Viana e o Conde de Assumar tomou proporções gigantescas e ainda não completamente explicadas, a peleja irrompeu os séculos seguintes, e ao alcançar o embrionário século da informação, nos remete a pensar quanto o entendimento destes dois episódios vão contribuir para esclarecer a criação do Estado de Minas Gerais e resgatar a importância histórica do Norte de Minas e das Gerais.

IMPÉRIO DAS ABSTRAÇÕES

Paulo Robério Ferreira Silva
Mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br

UM DOS TEMAS mais caros no universo das Ciências Humanas, em que se incluem a História, a Sociologia, a Antropologia, entre outras, são as questões que se desenrolam entre a perspectiva empirista e a idealista. Por estes viés desenvolvem-se os conceitos que são determinantes na construção do conhecimento científico, preponderante no mundo moderno.
Antes de se aprofundar a análise destes dois campos, vale ressaltar que entendimentos pode-se ter do que vem a ser empirismo e idealismo. Grosso modo, por empirismo entende-se as construções científicas balizadas nas experiências, ou seja, na apreensão da realidade, seja ela histórica ou contemporânea; quanto ao idealismo, a concepção refere-se aos entendimentos de mundo originários das imaginações, portanto sem referencial materialista.
É provável que se tenha dificuldades para ressaltar a partir de qual destas vertentes são construídos estes ou aqueles conhecimentos. Dá-se, num primeiro instante, o questionamento se, de fato, é importante perguntar-se sobre sua relevância. Uma resposta, embora não definitiva, mas que supõe-se esclarecedora, nos levaria a indagar sobre o papel do conhecimento científico, sabendo não ser este exclusivo. Logo, o que se chega é o entendimento de que a Ciência postula-se como um dos mais importantes determinantes do comportamento humano, característica que se observa nas suas elaborações cada vez mais complexas e imperantes.
Por outro lado, inclui-se aqui uma outra discussão que merece atenção: a relação dos conhecimentos de outros ramos da Ciência, como as Exatas e Biológicas, com o extenso campo das Humanas. Naturalmente, que por si só, este debate merece uma análise mais profunda, mas o que não se pode negligenciar é o fato de as Ciências Humanas estarem diretamente presentes na construção destes diferentes saberes.
Assim, aludindo ao objetivo maior deste pequeno texto, propõe-se pensar na profunda distinção entre a produção do conhecimento balizado no empirismo e aquele construído fruto do idealismo. O caráter empirista não dispensa a historicidade. Afinal, balizando-se nas construções humanas no tempo e no espaço objetiva-se aperfeiçoar as relações humanas em seus diferentes aspectos, do natural ao social. Por este caminho importantes obras foram construídas. Pode-se salientar as contribuições do alemão Karl Marx, do inglês E.P. Thompson e do brasileiro Gilberto Freye, entre tantos outros.
Um elemento destacador do empirismo é a real valorização das experiências humanas concretas, elemento decisivo para se identificar as diversidades humanas, aspecto fundamental para o entendimento de nossa existência. Dito de outro modo, só através deste campo do conhecimento humano é possível dar voz também aos povos que classicamente foram excluídos da história humana de caráter auto-centrado.
Na outra vertente, a idealista, vive-se o ápice das abstrações humanas, quando o real cede lugar ao desejável, ou simplesmente impõe-se o determinismo daquilo que se imagina ser. A de se convir que não seríamos, provavelmente, capazes de resistir durante muito tempo a dureza, nua e crua, da realidade tal qual ela é. Que, por esta perspectiva, o imaginário ocupa um lugar favorável e irredutível, pois, por ele nos permitimos otimistas para viver. No campo da Ciência, provavelmente, foi a especulação desmedida, associada a outros instrumentos, que permitiu ao homem tantos avanços e conquistas. Não seria insano pensar, então, que caminham juntos o empirismo e o idealismo.
De outra forma, que estejamos também atentos para os riscos do império das abstrações, quando as verdades atropelam a dignidade humana e nos tornamos reféns incondicionais de elaboradas fórmulas que sugerem entendimentos finais da humanidade, como quis Jean-Jacques Rousseau com o homem virtuoso do pacto social e Max Weber com a superioridade racional do europeu. Pois, assim, não teremos um mundo real construído para o bem estar de todos, e, sim, permaneceremos ao bel-prazer de senhores que constroem escravos, como assim fez Hegel.