VENTOS DO NORTE
A OCUPAÇÃO do atual Estado de Minas Gerais pelos colonizadores de origem européia, muitos a serviço da Coroa outros não, continua sendo tema de muita controvérsia na historiografia brasileira, sobretudo a mineira. A evidente profusão de trabalhos realizados pelos principais centros de pesquisa do Estado, localizados, em sua maior quantidade, na região central, tem tendido a informar que a ocupação do território deu-se, inicialmente, com as bandeiras vicentinas, sendo Fernão Dias o referencial primeiro desta ocupação, ou como convencionou-se chamar pela historiografia clássica, foi este o grande “descobridor” das terras dos Cataguazes – povo nativo predominante nestas plagas.Por outro lado, outros historiadores advertem, graças a recentes pesquisas e mesmo balizando-se em entendimentos já preconizados por historiadores mais antigos, que a ocupação deste território pelos colonizadores se deu pelo Norte, através da presença de originários da capitania da Bahia – então, o principal centro político, religioso, econômico e militar da colonização portuguesa na América. Neste contexto, pode-se indagar ainda que colonizadores, nativos e africanos, junto com seus descendentes, também vieram de outras capitanias, sobretudo do Nordeste.
No entanto, este embate, ainda não solucionado, originou-se no apagar das luzes do século XVII, quando se intensificava a corrida pelo ouro – fator determinante da criação da Capitania –, como pode ser observado de trecho da carta enviada por D. João de Lencastro, então Governador Geral da Bahia, a Artur de Sá Menezes, Governador do Rio de Janeiro. Nela, a maior autoridade do governo lusitano no Brasil, foi enfático: “me parece advertir a V.S., como seu amigo, que o Rio Verde, o Doce, o Pardo, o das Velhas e as cabeceiras do Espírito Santo estão no distrito da Bahia”. Mais à frente acrescenta: “que de nenhum modo excedam as pessoas que andarem no tal descobrimento das terras que inviolavelmente dever observar”.
Paralelo aos acontecimentos da esfera política lusitana na América, eclode outro, provavelmente, de maior intensidade. As questões ligadas à posse da terra, a arrecadação de tributos, os embates jurisdicionais, chegaram ao ápice com a contenda entre d. Maria Isabel Guedes de Brito, herdeira da sesmaria de Antônio Guedes de Brito – uma das maiores do Brasil, e o então governador das Minas dos Cataguazes, Antônio de Albuquerque Coelho.
Entra em cena uma das figuras mais polêmicas dos anos iniciais das terras das Minas Gerais. Trata-se de Manuel Nunes Viana, procurador de d. Maria Isabel Guedes de Brito, e que possuía residência em um imponente palacete as margens do rio “calindé” (primeira denominação do rio Calindó), no que viria a ser o atual município de Manga.
Ao defender os interesses, tanto de d. Maria Isabel como do governo baiano, Manuel Nunes Viana choca-se diretamente com temíveis forças lusitanas enviadas ao Brasil para administrar as questões do ouro. Num primeiro momento enfrenta D. Antônio de Albuquerque Coelho, que doou ilegalmente terras pertencentes a Bahia a um criado seu, José de Seixas. Depois, depara-se com seu maior adversário: Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar.
Findo que, a advertência não foi considerada, e o conflito de Manuel Nunes Viana e o Conde de Assumar tomou proporções gigantescas e ainda não completamente explicadas, a peleja irrompeu os séculos seguintes, e ao alcançar o embrionário século da informação, nos remete a pensar quanto o entendimento destes dois episódios vão contribuir para esclarecer a criação do Estado de Minas Gerais e resgatar a importância histórica do Norte de Minas e das Gerais.
