O DISCURSO VENCIDO
Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br
Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br
INEGAVELMENTE, somos originários de vários povos de continentes diferentes. Em busca de uma origem “segura”, fatalmente nos perderíamos no emaranhado de concepções míticas, científicas e imaginárias que tentam explicar como surgiu o homem na terra. Sem pretender ser deterministas, chegaríamos sem muita dificuldade a “Mama África” – é deste continente, os vestígios mais antigos que dão pistas da origem da espécie humana, o homo sapiens (segundo a classificação do naturalista sueco Carl Linné).Deixando de lado este passado imemorial, embora esteja no mesmo bojo, vamos direcionar nosso interesse ao surgimento do Brasil. Pensa-se aqui o Brasil como ethos, ou seja, o que é constituído de aspectos peculiares e singulares que caracterizam o todo – aquilo que é. Assim, os povos autóctones, erroneamente chamados de índios, agrupados conforme tradições seculares e milenares, vão se deparar com estranhos: os europeus, que surgem na condição de “senhores descobridores e colonizadores”, orientados por interesses econômico, religioso, militar, social e científico; e no momento seguinte vão também se encontrar com os africanos oriundos da Terra Mãe, que aportam na condição de escravos, em face da maior tragédia da história humana.
É a partir deste remoto encontro ainda no século XVI, que os estudiosos da nossa História vão encontrar os subsídios primários para investigar a invenção e a construção do “gigante pela própria natureza”.
Carl Friedrich Philipp von Martius (1794 – 1868), o botânico alemão que escreveu a primeira monografia em que se propôs quais métodos deveriam ser utilizados para escrever a História do Brasil em 1839, foi enfático em afirmar: “Qualquer um se encarrega de escrever a história do Brasil, país que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos que ái concorreram para o desenvolvimento do homem”.São porém estes elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular três raças, a saber: a de cor cobre ou americana, a branca ou a caucasiana, e enfim a preta ou etiópica”.
Nas décadas seguintes e até os nossos dias, a intelligentsia brasileira se apropriaria deste fundamento, como pode ser constatado em obras de João Capristano de Abreu, Nina Rodrigues, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., e inúmeros outros, para, então, traçar as diretrizes compreensivas da formação do Brasil.
Vasculhando ínfimas partes desta vastíssima produção intelectual-científica não passou despercebida uma tendência que se repete sem muitas dificuldades no dia-a-dia acadêmico brasileiro. Trata-se da soberania, apresentada quase que incontestavelmente, do mundo eurocentrado diante dos demais. Para ser mais exato, o discurso reducionista de que devemos muito mais aos europeus do que aos outros povos a invenção e construção do Brasil é imperante e arrogante diante da diversidade e mesclagem que fez e faz de nós aquilo que, inegavelmente, somos: brasileiros.
Este discurso de domínio, impetrado verticalmente e sustentado por ideologias poderosas, como: civilização, cultura, educação, progresso, modernidade, individualismo, evolução, democracia, cidadania, igualdade, liberdade, inibiu, ou melhor, constrangiu, a manifestação espontânea dos outros saberes, originários no seio dos povos autóctones, dos africanos e de outros que contribuíram e contribuem para a construção do Brasil. O que vimos, afinal, foi à imposição velada do “mundo europeu” nos trópicos.
Porém, antes de ser este o fim por si mesmo, como querem muitos, entramos no século XXI da era Cristã (invenção européia) com mais incertezas do que certeza sobre o mundo que existe – efeito do pós-modernismo (outra invenção européia). E se nos perguntarmos: quem, de fato, somos? Poderíamos responder com fez a baiana Patricia de Santana Pinho, Phd por Yale University, Estados Unidos, que disse: “A humanidade existente em mim é aquela que me conecta aos outros, ao mundo, à história e à contínua necessidade de resistência e transformação, como no sentido de ‘I and I’ (eu e eu) da mensagem do rastafarianismo, cantada nos reggaes de Bob Marley e Peter Tosh: o ‘eu’ que contém em si os outros, o ‘eu’ que conhece a história de seus antepassados e que se preocupa com o destino da humanidade, porque é o “eu” atado ao mundo”.
Enfim, pode-se, finalmente, perguntar: em que os discursos verticais, aqueles de domínio, vão se sustentar?



