quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O discurso vencido

O DISCURSO VENCIDO


Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


INEGAVELMENTE, somos originários de vários povos de continentes diferentes. Em busca de uma origem “segura”, fatalmente nos perderíamos no emaranhado de concepções míticas, científicas e imaginárias que tentam explicar como surgiu o homem na terra. Sem pretender ser deterministas, chegaríamos sem muita dificuldade a “Mama África” – é deste continente, os vestígios mais antigos que dão pistas da origem da espécie humana, o homo sapiens (segundo a classificação do naturalista sueco Carl Linné).
Deixando de lado este passado imemorial, embora esteja no mesmo bojo, vamos direcionar nosso interesse ao surgimento do Brasil. Pensa-se aqui o Brasil como ethos, ou seja, o que é constituído de aspectos peculiares e singulares que caracterizam o todo – aquilo que é. Assim, os povos autóctones, erroneamente chamados de índios, agrupados conforme tradições seculares e milenares, vão se deparar com estranhos: os europeus, que surgem na condição de “senhores descobridores e colonizadores”, orientados por interesses econômico, religioso, militar, social e científico; e no momento seguinte vão também se encontrar com os africanos oriundos da Terra Mãe, que aportam na condição de escravos, em face da maior tragédia da história humana.
É a partir deste remoto encontro ainda no século XVI, que os estudiosos da nossa História vão encontrar os subsídios primários para investigar a invenção e a construção do “gigante pela própria natureza”.
Carl Friedrich Philipp von Martius (1794 – 1868), o botânico alemão que escreveu a primeira monografia em que se propôs quais métodos deveriam ser utilizados para escrever a História do Brasil em 1839, foi enfático em afirmar: “Qualquer um se encarrega de escrever a história do Brasil, país que tanto promete, jamais deverá perder de vista quais os elementos que ái concorreram para o desenvolvimento do homem”.São porém estes elementos de natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo particular três raças, a saber: a de cor cobre ou americana, a branca ou a caucasiana, e enfim a preta ou etiópica”.
Nas décadas seguintes e até os nossos dias, a intelligentsia brasileira se apropriaria deste fundamento, como pode ser constatado em obras de João Capristano de Abreu, Nina Rodrigues, Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., e inúmeros outros, para, então, traçar as diretrizes compreensivas da formação do Brasil.
Vasculhando ínfimas partes desta vastíssima produção intelectual-científica não passou despercebida uma tendência que se repete sem muitas dificuldades no dia-a-dia acadêmico brasileiro. Trata-se da soberania, apresentada quase que incontestavelmente, do mundo eurocentrado diante dos demais. Para ser mais exato, o discurso reducionista de que devemos muito mais aos europeus do que aos outros povos a invenção e construção do Brasil é imperante e arrogante diante da diversidade e mesclagem que fez e faz de nós aquilo que, inegavelmente, somos: brasileiros.
Este discurso de domínio, impetrado verticalmente e sustentado por ideologias poderosas, como: civilização, cultura, educação, progresso, modernidade, individualismo, evolução, democracia, cidadania, igualdade, liberdade, inibiu, ou melhor, constrangiu, a manifestação espontânea dos outros saberes, originários no seio dos povos autóctones, dos africanos e de outros que contribuíram e contribuem para a construção do Brasil. O que vimos, afinal, foi à imposição velada do “mundo europeu” nos trópicos.
Porém, antes de ser este o fim por si mesmo, como querem muitos, entramos no século XXI da era Cristã (invenção européia) com mais incertezas do que certeza sobre o mundo que existe – efeito do pós-modernismo (outra invenção européia). E se nos perguntarmos: quem, de fato, somos? Poderíamos responder com fez a baiana Patricia de Santana Pinho, Phd por Yale University, Estados Unidos, que disse: “A humanidade existente em mim é aquela que me conecta aos outros, ao mundo, à história e à contínua necessidade de resistência e transformação, como no sentido de ‘I and I’ (eu e eu) da mensagem do rastafarianismo, cantada nos reggaes de Bob Marley e Peter Tosh: o ‘eu’ que contém em si os outros, o ‘eu’ que conhece a história de seus antepassados e que se preocupa com o destino da humanidade, porque é o “eu” atado ao mundo”.
Enfim, pode-se, finalmente, perguntar: em que os discursos verticais, aqueles de domínio, vão se sustentar?

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

CONCIÊNCIAS: negra e afro


Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


A lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003 institui oficialmente o Dia da Consciência Negra no Brasil. Junto com a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira nas escolas de ensino básico, pública e privada, esta lei simboliza uma conquista dos Movimentos Negros brasileiros. Para um país que tem uma população ancorada também na ancestralidade africana, com forte influência de saberes, conhecimentos, técnicas, cosmologia, arte, culinária, sistemas sociais e políticos, modos de vida etc, o termo “conquista” soa um tanto quanto estranho. Seu significado, no entanto, vai muito além do que, de imediato, pode-se imaginar.
Marcado por um passado relacionado à escravidão; subjugado pela História de caráter eurocêntrico, que relegou os povos afros a condição de subalternidade e “inferioridade” diante dos europeus e dos euros-descendentes; relegados à própria sorte com o fim da escravidão em 1888; excluídos das benesses do estado brasileiro – das “riquezas da nação”, a possibilidade de colocar a afro-descendência e as diferentes Áfricas no centro das discussões, debates e estudos, pode-se inferir como, de fato, uma conquista. Conquista que se projeta desde o primeiro contato com as terras tupiniquins ainda no século XVI, início da invasão e colonização lusa na América.
Este retrato traçado, embora não profundamente – o que possibilitaria novas compreensões da História dos povos afros no Brasil –, pretende mostrar que a luta em busca de “consciência” relaciona-se ao entendimento de que ela esta ausente. É preciso, então, criá-la.
Para nos inserirmos com mais propriedade neste debate, é preciso ressaltar que a luta pela criação de “consciência” relacionado aos povos afros no Brasil tomou forma nas décadas seguintes a abolição oficial da escravidão. O marco referencial é o surgimento da “imprensa negra” em São Paulo. Em 1915 começa a circular o primeiro jornal, O Menelick; em 1916 entra em circulação A Rua; em 1918, O Alfinete; no ano seguinte, é a vez de A Liberdade; em 1920 começa a ser publicado A Sentinela; em 1924 dois jornais entram em cena: O Getulino e o Clarim d´Alvorada. Todos com características semelhantes: foco nas questões dos povos afros e não cobertura dos grandes temas nacionais.
Passando pela Frente Negra Brasileira (FNB) criada em 1931; pela fundação do Teatro Experimental do Negro (TEM) em 1944; pela criação em 1954 da Associação Cultural do Negro (ACN); pela criação do Instituto de Pesquisa e Cultura Negra (IPCN) em 1975; pela criação do importante Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978; e por uma série de outras instituições, grupos e movimentos que caracterizam a luta dos povos afros em busca de “consciência”, as questões da afro-descendência e das Áfricas chegam aos nossos dias com alguns dilemas. Entre eles, dois destacam-se simultaneamente: primeiro, como desconstruir os mitos e os estereótipos da África e da afro-descendência, colocados, grosso modo, no patamar da mais primitiva condição humana – neste aspecto, pensa-se na necessidade de se re-significar a História; segundo, como estabelecer a partir desta Nova História, novas relações com as diferentes Áfricas na afro-descendência.
Tem-se percebido, no Mundo Afro, estas questões sendo tratadas por dois caminhos. O primeiro é a busca pela Mama África. Neste movimento estão assentados o pan-africanismo e o afrocentrismo. Fundamenta-se na “invenção” de Uma África anterior a tudo e a todos, primordial, senhora do céu e da terra, aquela que se encerra em si mesma. Na outra ponta, os “injustiçados de Clio” (deusa da História) – utilizamos, para este entendimento, o conceito desenvolvido por Clóvis Moura em As Injustiças de Clio (1990). Aqui, primeiro se vitimiza, depois busca retratar as injustiças provocadas pelo dominador, como destacou Alberto Pinto (2006). Este movimento, embora tenha perdido força nas últimas décadas, é referenciado por uma lenda nagô na Bahia que informa que os brancos conseguiram dominar o universo porque foram capazes de fazer suas obrigações, enquanto os negros descuidaram-se das suas, como relatou Muniz Sodré em A Verdade Seduzida (2005).
Assim, chega-se às manhãs do século XXI com uma pergunta: deve-se criar no Brasil consciências negras ou afros? Há diferenças? Independente de qualquer resposta, a baiana Patrícia de Santana Pinho, Phd pela Yale University, Estados Unidos, diz que “enquanto nos deixarmos convencer de que não há outro mundo possível, e que as utopias não passam de ilusões, continuaremos a agir de acordo com as circunstâncias e conveniências e assim o discurso de contestação continuará se perdendo em uma prática de conformação” (2004).

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A AUSÊNCIA DO AMANHÃ

Paulo Robério Ferreira Silva
Prof. de História e Especializado em
História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


Por mais difícil e duro que seja, é preciso conceber o amanhã. Não podemos negar que é muito mais cômodo nos escondermos no passado, estatizar o tempo, eliminar a dúvida e o conflito, enfim, buscar o paraíso, em que apenas aquilo que fomos e o que somos é o que interessa. Assim, é mais fácil. Uma série de situações são desviadas, negadas, negligenciadas, ou simplesmente desconsideradas.
Ao pensar assim, incisivamente, preteremos a radicalização. Mas para não ser assim tão duro, vejamos algumas situações que nos possibilite entender melhor o quanto é perigoso à ausência do amanhã.
O filósofo e matemático mineiro Eduardo Giannetti, PhD pela Universidade de Cambridge, E.U.A., autor de vários livros, entre eles O Valor do Amanhã, faz um importante questionamento: devemos cuidar do momento ou cuidar do amanha? Argumenta que em jogo estão os juros. Assim, a conta tem que ser paga. Os juros serão cobrados agora ou depois. Neste rápido comentário, despretensioso, diga-se de passagem, pode-se perceber que tal realidade esta implícita em nossos pensamentos, práticas e ações. Somos colocados cotidianamente diante deste dilema. Como salienta ainda, consciente ou inconscientemente, o fato é que decisões são tomadas.
Para a Ciência Histórica o movimento é outro. Interessa-nos muito mais o passado. Não nos entenderíamos na contemporaneidade apenas, ou seja, o presente por si só não se explica. Então, são as informações do ontem que vão explicar o hoje. E o amanhã, estaria ausente? Muitos historiadores vão responder que o amanhã não é problema nosso. Outros, vão dizer que “a historiografia não é ingênua” (Jacob Gorender). Tudo tem propósitos.
Porém, Michel Foucault, filósofo francês, alerta para uma outra situação. Seria o homem Eu ou Ser. Somos identidade – aquilo formado das idealizações baseadas nas experiências anteriores, ou somos Devir – estamos em permanente construção, estamos sempre por vir?
Edward W. Said, intelectual árabe-libanês, por sua vez, fala-nos da necessidade de considerarmos a liberdade e as experiências humanas como fundamentos para compreensão do mundo – isto nos remete, então, aos fundamentos da realidade.
Como então nos situarmos? Entre o hoje e o amanhã? Entre o passado e o presente (ou, passado, presente e futuro)? Na identidade imaginária ou na realidade, na constância, no Devir?
Por outro lado, sem historicizar não conseguiremos ultrapassar as barreiras do imediato, do momentâneo, da interpretação superficial das realidades, que não deixam de ser históricas, ao mesmo tempo, que contemporâneas.
Com qual delas ficar? Todas, impossível. Nenhuma, não deixa de ser provável. Afinal, o objetivo aqui não foi estabelecer verdades irredutíveis. Não há necessidade de extremar: isto em oposição a aquilo. Mas, acredito, ser perigoso a ausência do amanhã.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

A IDÉIA DE HUMANO


O que pretendo discutir neste pequeno texto é a concepção que temos de sermos humanos. Afinal, o mundo só se torna inteligível, isto é, só nos entendemos com seres vivos e participantes de complexas realidades a partir de nossas faculdades mentais racionais. E ai, nos deparamos com o primeiro grande problema para nos concebermos humanos: quando se pensa em faculdades racionais isto nos remete aos fundamentos da razão, ou o discernimento do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso, bom ou ruim. Não cabe ao historiador aprofundar esta análise ao menos até o ponto em que ela justifica-se como necessária no processo de construção de nossa consciência histórica. Assim, sabendo que somos seres históricos e que toda criação fundamenta-se no tempo, na “duração”, como afirmou o historiador francês Jacques Le Goff, resta-nos analisar a criação deste elemento histórico chamado razão.
Possivelmente, há aqueles que comungam com a idéia de que a razão é inerente ao homem, argumentando que é a racionalidade capacidade exclusiva do humano – portanto, algo ontológico. Outros vão pensar que a razão é uma construção humana que se desenvolve nos processos evolutivos da própria espécie. Possivelmente, uma dezena ou centena de outras interpretações vão se construir ao se refletir sobre a razão e a racionalidade. As duas propostas apresentadas aqui, porém, objetiva inserir o debate na seguinte perspectiva: a razão é um elemento político que pode ser manipulado pelo homem?
Hegel respondeu a esta questão sem titubear. Para ele as sociedades são constituídas por senhores e escravos. Aos primeiros cabe a função de pensar, formular, determinar e informar; aos escravos, incapazes da autonomia, cabe apenas a reprodução do que foi produzido pelo senhor. Assim, a racionalidade – aquela que nos permite discernir entre o certo e o errado, estaria sob controle de pequenos grupos humanos – as elites, os “eleitos”. Exemplos deste fundamento repetem-se a cada dia: é o Papa Bento XVI que informa que é o catolicismo a verdadeira religião cristã; é o presidente estadunidense George Bush apresentando-se como o todo poderoso senhor da “liberdade”; é a televisão, nos dizendo a cada instante, como devemos nos comportar e agir. Ou, o que considero mais grave: os conceitos distorcidos sendo vendidos como verdades absolutas – a idéia de cidadania, por exemplo, que não passa de manobra das elites para justificar seus benefícios e regalias – ceder um pouco para não perder o bolo maior. Afinal, que cidadania é esta que empurra os menos favorecidos para as prisões e mantém em liberdade aqueles que roubam milhões do povo.
Nesta sociedade, quando penso afinal que sou humano, me pergunto: que tipo de humano sou? Aquele que sei de mim, que é capaz de discernir conscientemente entre o bom ou o ruim, o verdadeiro ou o falso, o certo ou o errado? Que vivo a liberdade pela independência racional? Ou serei o humano das massas? O que pensa a age conforme os outros – os senhores – determinam? Afinal, qual a idéia de humano que tenho de mim?

domingo, 5 de agosto de 2007

HISTORICIZAR PRA QUÊ?


Num momento de tantas e vertiginosas mudanças, a exemplo das alterações de necessidades individuais promovidas pelo avanço tecnológico patrocinado pela economia capitalista dominante; dos recorrentes desvios de dinheiro público apresentados quase que diariamente pela Polícia Federal, que têm modificado sensivelmente nossas concepções políticas, republicanas, cidadãs e democráticas; dos intermináveis conflitos políticos mundiais – o caso da Petrobrás na Bolívia, as intervenções “bolivarianas” de Hugo Chavés da Venezuela na América e dos “insolúveis” conflitos no Oriente Médio, por exemplo, vem-se à tona uma necessidade premente para a humanidade: como se inserir nesta “louca” realidade sem historicizar a existência humana?
Para compreender melhor o que significa historicizar vamos propor o seguinte exercício: é possível, de fato, entender a realidade por ela mesma? É possível elaborar metas (planejar o futuro desejável) sem um conhecimento intenso do presente e um auto-reconhecimento existencial? Se “penso, logo existo”, penso a partir de quê? O que me orienta? Segundo o historiador Jörn Rüsen o agir humano é sempre determinado por significados e é intencional. Estas experiências, por sua vez, orientadoras das práticas humanas no tempo, são sempre experiências do passado. Sendo assim, o conhecimento histórico – produzido pela Ciência da História –, torna-se inseparável da própria existência humana. A inteligibilidade do dia-a-dia fundamenta-se exatamente nos saberes históricos que, por sua vez, canalizam os demais saberes humanos.
Por esta perspectiva, pensa-se, então, que historicizar o cotidiano (refletir a existência a partir do histórico), buscando no passado às informações necessárias para compreender melhor o presente e, por tabela, projetar de forma mais consistente o futuro desejado, é uma evidência que não pode continuar sendo negligenciada pelas instituições sociais públicas e privadas. Cabe, exatamente, as escolas, as igrejas, as associações e afins, aos órgãos públicos, aos políticos, aos formadores de opinião pública, ao indivíduo democratizado, propor um discurso em que se pense a realidade como concomitante de uma série de eventos que se entrelaçam processualmente e que, portanto, recebem interferências diretas dos sujeitos históricos – o homem em seu ambiente.
Continuaremos repetindo “inconscientemente” as mesmas práticas que geram apenas exclusão social, econômica e política, simplesmente, porque a crítica não pode existir por ferir a realidade daqueles que se enclausuram no poder? Ou, por outro lado, somos, de fato, livres para participarmos ativamente na construção do mundo que consideramos melhor para todos? Longe da pretensão de responder a estas indagações, penso que apenas o sujeito “historicizado” (sabedor de sua existência histórica) pode ser capaz de melhor se inserir nesta realidade e responder: historicizar pra quê?