sexta-feira, 10 de agosto de 2007

A IDÉIA DE HUMANO


O que pretendo discutir neste pequeno texto é a concepção que temos de sermos humanos. Afinal, o mundo só se torna inteligível, isto é, só nos entendemos com seres vivos e participantes de complexas realidades a partir de nossas faculdades mentais racionais. E ai, nos deparamos com o primeiro grande problema para nos concebermos humanos: quando se pensa em faculdades racionais isto nos remete aos fundamentos da razão, ou o discernimento do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso, bom ou ruim. Não cabe ao historiador aprofundar esta análise ao menos até o ponto em que ela justifica-se como necessária no processo de construção de nossa consciência histórica. Assim, sabendo que somos seres históricos e que toda criação fundamenta-se no tempo, na “duração”, como afirmou o historiador francês Jacques Le Goff, resta-nos analisar a criação deste elemento histórico chamado razão.
Possivelmente, há aqueles que comungam com a idéia de que a razão é inerente ao homem, argumentando que é a racionalidade capacidade exclusiva do humano – portanto, algo ontológico. Outros vão pensar que a razão é uma construção humana que se desenvolve nos processos evolutivos da própria espécie. Possivelmente, uma dezena ou centena de outras interpretações vão se construir ao se refletir sobre a razão e a racionalidade. As duas propostas apresentadas aqui, porém, objetiva inserir o debate na seguinte perspectiva: a razão é um elemento político que pode ser manipulado pelo homem?
Hegel respondeu a esta questão sem titubear. Para ele as sociedades são constituídas por senhores e escravos. Aos primeiros cabe a função de pensar, formular, determinar e informar; aos escravos, incapazes da autonomia, cabe apenas a reprodução do que foi produzido pelo senhor. Assim, a racionalidade – aquela que nos permite discernir entre o certo e o errado, estaria sob controle de pequenos grupos humanos – as elites, os “eleitos”. Exemplos deste fundamento repetem-se a cada dia: é o Papa Bento XVI que informa que é o catolicismo a verdadeira religião cristã; é o presidente estadunidense George Bush apresentando-se como o todo poderoso senhor da “liberdade”; é a televisão, nos dizendo a cada instante, como devemos nos comportar e agir. Ou, o que considero mais grave: os conceitos distorcidos sendo vendidos como verdades absolutas – a idéia de cidadania, por exemplo, que não passa de manobra das elites para justificar seus benefícios e regalias – ceder um pouco para não perder o bolo maior. Afinal, que cidadania é esta que empurra os menos favorecidos para as prisões e mantém em liberdade aqueles que roubam milhões do povo.
Nesta sociedade, quando penso afinal que sou humano, me pergunto: que tipo de humano sou? Aquele que sei de mim, que é capaz de discernir conscientemente entre o bom ou o ruim, o verdadeiro ou o falso, o certo ou o errado? Que vivo a liberdade pela independência racional? Ou serei o humano das massas? O que pensa a age conforme os outros – os senhores – determinam? Afinal, qual a idéia de humano que tenho de mim?

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