quinta-feira, 20 de março de 2008

CONHECIMENTO


Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


VIVE-SE HOJE, como já foi rotulado, a era da informação. Novas mídias de massa surgem e se espalham a uma velocidade estonteante; outras, no entanto, renovam-se, reinventam-se, convergem. É o caso das revistas, cada vez mais segmentadas; das emissoras de rádio, também segmentadas e interativas; dos jornais que inventam novos formatos; dos livros, como temas cada vez mais diversos, design arrojados e novos formatos de distribuição; do celular, que se recheia de novas e incríveis funções; da TV, que na era digital, promete mudar completamente os conceitos clássicos que conhecemos; e, claro, do universo da rede mundial – a internet com suas infinitas possibilidades de comunicação e interação, que nos surpreende a cada momento; e tantos outros meios de comunicação e intercomunicação que faz o mundo parecer pequeno.
Assim, as necessidades vão instigando a criatividade do homem na busca de soluções cada vez mais “inusitadas” – se me permitem a licença – para aquilo que em um determinado momento parece impossível.
Como o objetivo aqui não é fazer “apologia” aos meios de informação, mas antes pensar no conhecimento, e sabendo que as plataformas por onde escoam o conhecimento são inúmeras e dinâmicas, torna-se pertinente fazer outras perguntas, naturalmente sem a pretensão de esgotar o tema. Assim, o que me vem à mente são três questões: primeiro, qual a finalidade do conhecimento? Segundo, qual ou quais conhecimentos são necessários para cada situação cotidiana específica? E por último, como dimensionar o poder do conhecimento?
São, evidentemente, questões que precisariam de um livro para serem respondidas – se isto for possível, a contento. Como, no entanto, o espaço disponível é diminuto, serei, por tabela, também diminuto, embora pretendo não ser inconsistente, nas análises, e alerto, de ante-mão, que outras e significativas perspectivas se encaixariam as três aqui levantadas.
Quando se pensa em finalidade do conhecimento, é inevitável que venha à tona a velha máxima: o conhecimento transforma. Então, pergunta-se: por que o conhecimento é capaz de transformar? E transformar é aquilo que realmente precisamos? Somos seres insaciáveis, devoradores incontroláveis de tudo, inclusive de nós mesmos? Ou, por outro lado, a eterna busca pelo conhecimento é aquilo que nos faz distintos, e, sendo assim, nega-lo é retroceder aos primórdios da existência?
Caberia aqui infinidade de perguntas, mas, acredito, já temos dúvidas demais para nos incomodar.
Sendo, enfim, o conhecimento atributo exclusivo da espécie humana – do homem verdadeiramente inteligente –, formula-se a segunda questão: como transitar no universo dos conhecimentos? Afinal, embora vive-se no lado ocidental do planeta o imperativo do conhecimento científico, ainda que muitos não queiram, os conhecimentos míticos, religiosos, cosmológicos, políticos, sociais, econômicos, artísticos e tantos outros, estão indubitavelmente presente e determinam nossas interpretações de mundo e nossas formas de fazê-lo.
O conhecimento como diferencial humano não se impõe apenas entre nossa espécie e as demais, mas, transita também entre nós mesmos, como é muito fácil constatar. Há, em verdade, uma cadeia muito bem organizada de produção e difusão dos conhecimentos. No seio do universo científico, são as academias, através de seus investigadores e por discursos extremamente elaborados que determinam aquilo que se deve saber; na religião os dogmas e as doutrinas se renovam a partir de líderes – muitas vezes “iluminados”; naquelas sociedades chamadas de tradicionais, via de regra, são os mais velhos os que conduzem o conhecimento e o distribui. Outros e infinitos exemplos poderiam ser levantados, mas, acredito, que estes nos basta.
De toda forma, conhecemos não necessariamente aquilo que precisamos – para isto seria necessário um impossível processo de individualização do homem –, mas o que foi convencionado. Resta-nos participar de forma ativa destas poderosas convenções, para que assim possamos transitar sem receio e medo pelo nebuloso universo das transformações. Afinal, bem poderíamos afirmar que a era da informação é também a era do poder. E como diz Robert Alan Dahl, um dos mais destacados cientistas político da atualidade: “pero el camino que he escogido tiene cierta lógica, o al menos cierta razoabilidad, si se me permite exporesarlo así”.