terça-feira, 6 de outubro de 2009

19 DE OUTUBRO DE 1924: nasce a Vila de Manga*


Paulo Robério Ferreira Silva
Historiador
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
Mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas


Freqüentemente tenho sido indagado quanto à polêmica das datas 07 de Setembro e 19 de Outubro. No imaginário popular, ao que tudo indica, tal polêmica provém das acirradas questões políticas que corriqueiramente dividem a população em relação tanto aos diferentes temas do cotidiano, como quanto à história local. Questões políticas à parte, e ainda muito menos pessoais, o que consta da história é que para que o município de Manga fosse efetivamente criado fora editada em 07 de Setembro de 1923 a Lei Estadual nº 843 que previa a instalação do município em 19 de Outubro de 1924. Dado e processado conforme determinado, nascia o município de Manga nesta referida data, contando, além da Vila de Manga (sede do município), com os distritos de Matias Cardoso e Japoré (atual Brejo São Caetano), conforme informa a Lei nº 1, de 31 de Outubro de 1924 da Câmara Municipal de Manga.
De outro modo, incontestes são os dados contidos na Ata do Conselho Consultivo da Prefeitura Municipal de Manga de 19 de Outubro de 1931, em que se registrou a comemoração oficial do sétimo aniversário “da elevação de Manga a categoria de Vila”. Às dezoito horas no prédio da Prefeitura Municipal (vide figura 1) se reuniram os membros do referido conselho: Domiciano Pastor Filho (presidente), Augusto Eufrásio da Silva, João Pereira Costa, Francisco José Barbosa, José de Faria Oliveira e José Belém de Souza, além de outras autoridades locais, professores, alunos, membros da milícia legionária, a filarmônica local Arthur Bernardes e elevado número de pessoas da comunidade, para efetivarem as comemorações alusivas. Nesse momento solene, evidenciou-se a conquista de emancipação de Manga do município de Januária em face dos esforços políticos dos líderes locais, sobretudo, Domiciano Pastor Filho e da íntima relação política deste com o então presidente do Estado de Minas Gerais, Olegário Maciel, que fora, na ocasião, ovacionado pelos partícipes.
Desfeito o “engano”, e ante a falácia política, o 19 de Outubro – data ligeiramente esquecida fora da arena vaidosa do mando – bem que poderia ganhar outro significado. Quem sabe, não fosse de todo inoportuno, no momento de comemorarmos a autonomia administrativo-política fosse relevante discutirmos também nossa autonomia do bem-estar social? Não seria apropriado perguntarmos como os interesses e as necessidades sociais são atendidas pelos poderes públicos legais? Ou ainda, como estamos dialogando com esses poderes, considerando que eles são apenas e simplesmente nossos funcionários? Ou, para ser mais preciso, não seria mais proveitoso perguntarmos qual a correspondência daquilo que realmente precisamos com aquilo que é ofertado por quem tem que ofertar?
Se não fizermos estas perguntas – e não apenas –, seguramente não vamos obter resposta alguma. Se o 19 de Outubro continuar reduzido a uma débil disputa da vaidade, continuará sem sentido a autonomia administrativo-política do nosso município. Se, por fim, não trouxermos de volta os homens e pusermos neles um pouco de sangue, como propõe Homans, continuaremos, como desde o 19 de Outubro de 1924, meros expectadores de nossa própria história.

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quarta-feira, 23 de abril de 2008

VENTOS DO NORTE

Paulo Robério Ferreira Silva
Mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br

A OCUPAÇÃO do atual Estado de Minas Gerais pelos colonizadores de origem européia, muitos a serviço da Coroa outros não, continua sendo tema de muita controvérsia na historiografia brasileira, sobretudo a mineira. A evidente profusão de trabalhos realizados pelos principais centros de pesquisa do Estado, localizados, em sua maior quantidade, na região central, tem tendido a informar que a ocupação do território deu-se, inicialmente, com as bandeiras vicentinas, sendo Fernão Dias o referencial primeiro desta ocupação, ou como convencionou-se chamar pela historiografia clássica, foi este o grande “descobridor” das terras dos Cataguazes – povo nativo predominante nestas plagas.
Por outro lado, outros historiadores advertem, graças a recentes pesquisas e mesmo balizando-se em entendimentos já preconizados por historiadores mais antigos, que a ocupação deste território pelos colonizadores se deu pelo Norte, através da presença de originários da capitania da Bahia – então, o principal centro político, religioso, econômico e militar da colonização portuguesa na América. Neste contexto, pode-se indagar ainda que colonizadores, nativos e africanos, junto com seus descendentes, também vieram de outras capitanias, sobretudo do Nordeste.
No entanto, este embate, ainda não solucionado, originou-se no apagar das luzes do século XVII, quando se intensificava a corrida pelo ouro – fator determinante da criação da Capitania –, como pode ser observado de trecho da carta enviada por D. João de Lencastro, então Governador Geral da Bahia, a Artur de Sá Menezes, Governador do Rio de Janeiro. Nela, a maior autoridade do governo lusitano no Brasil, foi enfático: “me parece advertir a V.S., como seu amigo, que o Rio Verde, o Doce, o Pardo, o das Velhas e as cabeceiras do Espírito Santo estão no distrito da Bahia”. Mais à frente acrescenta: “que de nenhum modo excedam as pessoas que andarem no tal descobrimento das terras que inviolavelmente dever observar”.
Paralelo aos acontecimentos da esfera política lusitana na América, eclode outro, provavelmente, de maior intensidade. As questões ligadas à posse da terra, a arrecadação de tributos, os embates jurisdicionais, chegaram ao ápice com a contenda entre d. Maria Isabel Guedes de Brito, herdeira da sesmaria de Antônio Guedes de Brito – uma das maiores do Brasil, e o então governador das Minas dos Cataguazes, Antônio de Albuquerque Coelho.
Entra em cena uma das figuras mais polêmicas dos anos iniciais das terras das Minas Gerais. Trata-se de Manuel Nunes Viana, procurador de d. Maria Isabel Guedes de Brito, e que possuía residência em um imponente palacete as margens do rio “calindé” (primeira denominação do rio Calindó), no que viria a ser o atual município de Manga.
Ao defender os interesses, tanto de d. Maria Isabel como do governo baiano, Manuel Nunes Viana choca-se diretamente com temíveis forças lusitanas enviadas ao Brasil para administrar as questões do ouro. Num primeiro momento enfrenta D. Antônio de Albuquerque Coelho, que doou ilegalmente terras pertencentes a Bahia a um criado seu, José de Seixas. Depois, depara-se com seu maior adversário: Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, o Conde de Assumar.
Findo que, a advertência não foi considerada, e o conflito de Manuel Nunes Viana e o Conde de Assumar tomou proporções gigantescas e ainda não completamente explicadas, a peleja irrompeu os séculos seguintes, e ao alcançar o embrionário século da informação, nos remete a pensar quanto o entendimento destes dois episódios vão contribuir para esclarecer a criação do Estado de Minas Gerais e resgatar a importância histórica do Norte de Minas e das Gerais.

IMPÉRIO DAS ABSTRAÇÕES

Paulo Robério Ferreira Silva
Mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br

UM DOS TEMAS mais caros no universo das Ciências Humanas, em que se incluem a História, a Sociologia, a Antropologia, entre outras, são as questões que se desenrolam entre a perspectiva empirista e a idealista. Por estes viés desenvolvem-se os conceitos que são determinantes na construção do conhecimento científico, preponderante no mundo moderno.
Antes de se aprofundar a análise destes dois campos, vale ressaltar que entendimentos pode-se ter do que vem a ser empirismo e idealismo. Grosso modo, por empirismo entende-se as construções científicas balizadas nas experiências, ou seja, na apreensão da realidade, seja ela histórica ou contemporânea; quanto ao idealismo, a concepção refere-se aos entendimentos de mundo originários das imaginações, portanto sem referencial materialista.
É provável que se tenha dificuldades para ressaltar a partir de qual destas vertentes são construídos estes ou aqueles conhecimentos. Dá-se, num primeiro instante, o questionamento se, de fato, é importante perguntar-se sobre sua relevância. Uma resposta, embora não definitiva, mas que supõe-se esclarecedora, nos levaria a indagar sobre o papel do conhecimento científico, sabendo não ser este exclusivo. Logo, o que se chega é o entendimento de que a Ciência postula-se como um dos mais importantes determinantes do comportamento humano, característica que se observa nas suas elaborações cada vez mais complexas e imperantes.
Por outro lado, inclui-se aqui uma outra discussão que merece atenção: a relação dos conhecimentos de outros ramos da Ciência, como as Exatas e Biológicas, com o extenso campo das Humanas. Naturalmente, que por si só, este debate merece uma análise mais profunda, mas o que não se pode negligenciar é o fato de as Ciências Humanas estarem diretamente presentes na construção destes diferentes saberes.
Assim, aludindo ao objetivo maior deste pequeno texto, propõe-se pensar na profunda distinção entre a produção do conhecimento balizado no empirismo e aquele construído fruto do idealismo. O caráter empirista não dispensa a historicidade. Afinal, balizando-se nas construções humanas no tempo e no espaço objetiva-se aperfeiçoar as relações humanas em seus diferentes aspectos, do natural ao social. Por este caminho importantes obras foram construídas. Pode-se salientar as contribuições do alemão Karl Marx, do inglês E.P. Thompson e do brasileiro Gilberto Freye, entre tantos outros.
Um elemento destacador do empirismo é a real valorização das experiências humanas concretas, elemento decisivo para se identificar as diversidades humanas, aspecto fundamental para o entendimento de nossa existência. Dito de outro modo, só através deste campo do conhecimento humano é possível dar voz também aos povos que classicamente foram excluídos da história humana de caráter auto-centrado.
Na outra vertente, a idealista, vive-se o ápice das abstrações humanas, quando o real cede lugar ao desejável, ou simplesmente impõe-se o determinismo daquilo que se imagina ser. A de se convir que não seríamos, provavelmente, capazes de resistir durante muito tempo a dureza, nua e crua, da realidade tal qual ela é. Que, por esta perspectiva, o imaginário ocupa um lugar favorável e irredutível, pois, por ele nos permitimos otimistas para viver. No campo da Ciência, provavelmente, foi a especulação desmedida, associada a outros instrumentos, que permitiu ao homem tantos avanços e conquistas. Não seria insano pensar, então, que caminham juntos o empirismo e o idealismo.
De outra forma, que estejamos também atentos para os riscos do império das abstrações, quando as verdades atropelam a dignidade humana e nos tornamos reféns incondicionais de elaboradas fórmulas que sugerem entendimentos finais da humanidade, como quis Jean-Jacques Rousseau com o homem virtuoso do pacto social e Max Weber com a superioridade racional do europeu. Pois, assim, não teremos um mundo real construído para o bem estar de todos, e, sim, permaneceremos ao bel-prazer de senhores que constroem escravos, como assim fez Hegel.

quinta-feira, 20 de março de 2008

CONHECIMENTO


Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


VIVE-SE HOJE, como já foi rotulado, a era da informação. Novas mídias de massa surgem e se espalham a uma velocidade estonteante; outras, no entanto, renovam-se, reinventam-se, convergem. É o caso das revistas, cada vez mais segmentadas; das emissoras de rádio, também segmentadas e interativas; dos jornais que inventam novos formatos; dos livros, como temas cada vez mais diversos, design arrojados e novos formatos de distribuição; do celular, que se recheia de novas e incríveis funções; da TV, que na era digital, promete mudar completamente os conceitos clássicos que conhecemos; e, claro, do universo da rede mundial – a internet com suas infinitas possibilidades de comunicação e interação, que nos surpreende a cada momento; e tantos outros meios de comunicação e intercomunicação que faz o mundo parecer pequeno.
Assim, as necessidades vão instigando a criatividade do homem na busca de soluções cada vez mais “inusitadas” – se me permitem a licença – para aquilo que em um determinado momento parece impossível.
Como o objetivo aqui não é fazer “apologia” aos meios de informação, mas antes pensar no conhecimento, e sabendo que as plataformas por onde escoam o conhecimento são inúmeras e dinâmicas, torna-se pertinente fazer outras perguntas, naturalmente sem a pretensão de esgotar o tema. Assim, o que me vem à mente são três questões: primeiro, qual a finalidade do conhecimento? Segundo, qual ou quais conhecimentos são necessários para cada situação cotidiana específica? E por último, como dimensionar o poder do conhecimento?
São, evidentemente, questões que precisariam de um livro para serem respondidas – se isto for possível, a contento. Como, no entanto, o espaço disponível é diminuto, serei, por tabela, também diminuto, embora pretendo não ser inconsistente, nas análises, e alerto, de ante-mão, que outras e significativas perspectivas se encaixariam as três aqui levantadas.
Quando se pensa em finalidade do conhecimento, é inevitável que venha à tona a velha máxima: o conhecimento transforma. Então, pergunta-se: por que o conhecimento é capaz de transformar? E transformar é aquilo que realmente precisamos? Somos seres insaciáveis, devoradores incontroláveis de tudo, inclusive de nós mesmos? Ou, por outro lado, a eterna busca pelo conhecimento é aquilo que nos faz distintos, e, sendo assim, nega-lo é retroceder aos primórdios da existência?
Caberia aqui infinidade de perguntas, mas, acredito, já temos dúvidas demais para nos incomodar.
Sendo, enfim, o conhecimento atributo exclusivo da espécie humana – do homem verdadeiramente inteligente –, formula-se a segunda questão: como transitar no universo dos conhecimentos? Afinal, embora vive-se no lado ocidental do planeta o imperativo do conhecimento científico, ainda que muitos não queiram, os conhecimentos míticos, religiosos, cosmológicos, políticos, sociais, econômicos, artísticos e tantos outros, estão indubitavelmente presente e determinam nossas interpretações de mundo e nossas formas de fazê-lo.
O conhecimento como diferencial humano não se impõe apenas entre nossa espécie e as demais, mas, transita também entre nós mesmos, como é muito fácil constatar. Há, em verdade, uma cadeia muito bem organizada de produção e difusão dos conhecimentos. No seio do universo científico, são as academias, através de seus investigadores e por discursos extremamente elaborados que determinam aquilo que se deve saber; na religião os dogmas e as doutrinas se renovam a partir de líderes – muitas vezes “iluminados”; naquelas sociedades chamadas de tradicionais, via de regra, são os mais velhos os que conduzem o conhecimento e o distribui. Outros e infinitos exemplos poderiam ser levantados, mas, acredito, que estes nos basta.
De toda forma, conhecemos não necessariamente aquilo que precisamos – para isto seria necessário um impossível processo de individualização do homem –, mas o que foi convencionado. Resta-nos participar de forma ativa destas poderosas convenções, para que assim possamos transitar sem receio e medo pelo nebuloso universo das transformações. Afinal, bem poderíamos afirmar que a era da informação é também a era do poder. E como diz Robert Alan Dahl, um dos mais destacados cientistas político da atualidade: “pero el camino que he escogido tiene cierta lógica, o al menos cierta razoabilidad, si se me permite exporesarlo así”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

REFLEXÕE SOBRE A NECESSIDADE


Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


DOIS INTERESSANTES DEBATES ocorrem no seio da Ciência História: o primeiro deles refere, exatamente, ao entendimento que se tem da História como ciência; o segundo, diz respeito ao campo de pesquisa da História e as intrigadas relações que se articulam.
Quanto à perspectiva de a História vir a ser concebida como ciência, propõe-se o exercício de substituir a História por outros campos do conhecimento humano para se atingir os mesmos resultados que a Ciência Histórica produz. Esta perspectiva, largamente utilizada por Michel Foucault em Arqueologia do Saber, indica a dificuldade que se tem de construir entendimentos sobre o passado fora do campo da Ciência Histórica. E quando se refere à História, deve-se entender que trata-se do passado revelado, como atesta o historiador inglês Keith Jenkins – aquilo que ainda não foi revelado do passado não é História, é, simplesmente, passado.
Sendo o passado o campo de pesquisa da Ciência Histórica, se pergunta: afinal, a História é uma ciência do presente ou do passado? Para Michel Foucault e Paul Veyne, por exemplo, a História é uma construção do presente, que atende as necessidades e interesses do tempo presente. Por esta reflexão, as narrativas históricas não passam de representações do passado. Se forem representações, são subjetividades que atendem a interesses individuais e coletivos, acentuado o entendimento de Jacob Gorender que a historiografia não é ingênua.
Por este raciocínio, pergunta-se: existe a necessidade da História? Como ela participa do entendimento que se constrói na e da contemporaneidade?
Para responder a estes questionamentos tomemos como campo de análise os debates relacionados à diversidade étnico-cultural-racial que vem se desenvolvendo com grande vigor no Brasil nas últimas décadas. Os novos entendimentos que surgiram e surgem com os importantes avanços na historiografia e em disciplinas afins tem alimentado o interesse para “desvendar”, se isto for, de fato, possível, as complexas construções históricas que construíram e constroem o Brasil. Assim, é revelador, por exemplo, o trabalho de Junia Ferreira Furtado, pesquisadora da UFMG, quanto às dinâmicas econômicas do século XVIII em Minas Gerais que mostram como africanos e afros-descendentes assumiram a posição de homens e mulheres de negócio na colônia.
Por este viés, surge uma série de necessidades quanto ao trabalho historiográfico: a primeira delas, em construir novos métodos de análise que supere o reducionismo clássico da leitura do Brasil na perspectiva do entendimento da relação dominador-dominado. Não que este tipo de leitura deva ser, definitivamente, banido, mas que, ao entender a necessidade de se compreender a Diversidade que dá forma ao Brasil, venha ser possível re-significar a História para que torne-se possível emergir novos entendimentos.
Apoiando-se no método foucaultiano apresentado anteriormente, visualiza-se o seguinte entendimento: a urgente necessidade de se dimensionar a relação do re-significar a História do Brasil e do mundo colonizado com as “necessidades” do tempo presente – isto, porque qual outra perspectiva poderia ser utilizada para se alcançar as mudanças necessárias para se entender as Diversidades, marca indelével da formação do Brasil.
Assim, pode-se, finalmente, entender a importância que se tem de questionar as narrativas historiográficas clássicas – aquelas que têm moldado ou induzido nossas compreensões de Brasil. Em seu lugar, que se construa entendimentos que privilegiem a Dignidade Humana, a Liberdade Plena, que seja pautado nas Experiências Humanas e na capacidade inerente a todo ser humano do autogoverno.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

A CORTE PORTUGUESA NO BRASIL: outros olhares

Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br

DUZENTOS ANOS se passaram da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil. Na madrugada de 11 de novembro de 1807, embarcaram, no cais de Belém em terras lusitanas, 15 mil pessoas – era a Corte e seus protegidos. Fugiam da invasão Napoleônica que pretendia conquistar a Europa. Graças ao apoio dos ingleses, arquiinimigos dos franceses, a travessia do Atlântico ocorreu, em seus 54 dias, sem muitos atropelos. Aportaram na Bahia em 22 de janeiro de 1808; em 07 de março do mesmo ano, a Corte desembarca definitivamente no Rio de Janeiro, onde permaneceria até o retorno de D. João VI em 26 de abril de 1821.
Alguns números são surpreendentes: primeiro, é preciso dimensionar uma comitiva real com 15 mil indivíduos; afora isto, foram utilizadas 35 embarcações na empresa, eram: 8 naus, 3 fragatas, 2 brigues, 1 escuna de guerra, 1 charrua de mantimento e mais 20 navios mercantes. É curioso observar também que trouxeram, em 84 cofres, metade do tesouro português, avaliado em 80 milhões de cruzados; cerca de 70 milhões tinha sido gasto para comprar a neutralidade junto a Napoleão; para os desamparados lusitanos que ficaram no reino sobrou apenas algo em torno de 10 milhões de cruzados.
A presença da corte portuguesa no Brasil, que viria a ganhar a qualidade de Reino Unido a Portugal e Algarves em 15 de dezembro de 1815, foi marcada por pompas, festas, distribuição de benefícios, autorizações, modernizações, inaugurações, e uma série de outras práticas e atividades típicas de uma corte absolutista, com ressaltou Boris Fausto, historiador da USP especializado em História do Brasil.
É, exatamente, neste ponto que, fugindo de uma visão entronizada e midiática deste fato peculiar do mundo colonialista – a transferência de uma corte para uma de suas possessões, precisa-se dimensionar a formação do Brasil como fruto de um penoso processo colonizador.
Não se pode negar que a vinda da família real portuguesa e sua corte trouxe enormes benefícios para o Brasil. Para alojar tanta gente e dignificar a nobreza lusitana, além de ocuparem propriedades particulares, desrespeitaram contratos, tratados e convenções, fomentaram a estruturação de algumas áreas da colônia com a abertura dos portos, conforme Carta Régia de 28 de janeiro de 1808, assinada na cidade de São Salvador, depois de embargo que perdurava a mais de 200 anos (na verdade, ato sancionado para pagamento da dívida contraída junto aos ingleses em face do apoio a travessia da corte portuguesa); a modernização do Rio de Janeiro, então capital do Brasil; a criação do Banco do Brasil, do Jardim Botânico, da Academia Militar e da Marinha, da Biblioteca Real, da Imprensa Régia, de instituições de ensino superior – a primeira foi a Escola de Cirurgia na Bahia em 1808; e, entre tantos outros feitos, a permissão para o funcionamento de fábricas e manufaturas no Brasil.
Na onda pós-revolução industrial inglesa, sob influência dos iluminados europeus, apetitados pelas revoluções independentistas, o Brasil, com a Corte nos trópicos, mergulha nas benesses da modernização. Não custa perguntar, no entanto, para quem foi feita esta modernização e quem foram realmente os beneficiados?
Enquanto a elite do Rio de Janeiro usufruía as conquistas o restante do Brasil, com raríssimas exceções, permanecia atrelado aos ditames da colonização que travava o pleno desenvolvimento do país. Basta considerar para isto que o ensino regular era apenas para os abastados colonizadores e descendentes (era proibido o funcionamento de instituições de ensino superior, por exemplo); enquanto a Europa e os Estados Unidos desenvolviam seus parques industriais e as sociedades de mercado, o Brasil penava sob severas proibições ao desenvolvimento de atividades comerciais (apenas aquelas tuteladas pelo Estado português eram permitidas); pasmem, era proibido o desenvolvimento científico e intelectual – não podia funcionar gráficas e era proibido a publicação de livros e jornais, que circulavam com raras exceções e apenas quando de interesse dos portugueses. Neste vasto território, valia a lei do mais forte, a presença do poder público limitava-se a atender aos interesses das famílias mais importantes, o povo desprotegido lutava pela sobrevivência conforme as conveniências de cada situação e lugar.
Naturalmente que, para entender estes processos, análises profundas teriam que ser realizadas, mas, grosso modo, se levarmos em consideração os aspectos sociais vinculados à vinda da Corte Portuguesa para o Brasil entender-se-ia melhor os malefícios da colonização: os “avanços” feitos e permitidos pelos portugueses sempre destinaram-se a atender aos interesses na elite e nunca da população em geral; por outro lado, este mesmo modelo foi apropriado pela elite brasileira que governa este país desde 1822, ou seja, em nossos dias, mesmo com tantas conquistas, continuamos nos pasmando com leis, práticas, políticas públicas e outros elementos que beneficiam pequenos grupos de privilegiados e regiões específicas. Aproveitando-se do comentário do economista estadunidense, Douglass North, que insinua a dificuldade de muitos países em atingir níveis consideráveis de desenvolvimento, em face, das deficiências quanto à economia de mercado e a instituições sólidas, podemos acrescentar que o desenvolvimento só se consolida se a prioridade for o benefício social para todos e não para o pequeno grupo de “privilegiados”.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A SUPERAÇÃO DOS PARADIGMAS

Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br


EM PRINCÍPIO, parece soar estranho a proposta de superação de paradigmas, quando sabemos que é exatamente através deste recurso teórico que identificamos as coisas e entendemos o mundo. Além do devaneio, no entanto, a proposta é fazermos algumas reflexões simples que nos permita fugir do imperativo da ordem, nada mais do que isso, embora saibamos também que na desordem nada funciona.
No contexto científico, paradigma relaciona-se a modelos matrizes em que as experiências e experimentações vão se apoiar. Como o uso não restringe-se apenas ao universo da pesquisa, os paradigmas consolidam-se também em outros campos, inclusive no senso comum. É através deles, por exemplo, que busca-se entendimento para as relações sociais, que confundem-se muitas vezes como processos civilizatórios; que reduzimos nossa espiritualidade aos aspectos religiosos fundamentados nos movimentos políticos-ideológicos; ou ainda, que nos seduzimos pela modernidade e a aparente opulência do outro. De todo modo, a própria existência humana esta condicionada aos paradigmas. Por que, então, tentar a superá-los?
Num primeiro momento, poderíamos pensar em um movimento intelectual que nos traria prazer; ou até mesmo num exercício despretensioso de superação das realidades. Michel Foucault, que ganhou visibilidade popular no Brasil depois do filme Tropa de Elite, sugere em uma de suas principais obras, Arqueologia do Saber (2007), a necessidade de se pensar as questões humanas, da consciência, da origem e do sujeito. Se considerarmos este viés, a proposta se torna mais sólida e até gratificante.
Então, a superação de paradigmas, diga-se: extremamente complexa, configura-se como substrato para a construção de novos modelos de sociabilidade. Impõe-se a emergência de num esforço abstrato coerente e pujante para que a contemporaneidade tome formas que privilegiem a liberdade, a diversidade, a autonomia e a dignidade humana.
No afã dos modelos dados e das verdades estabelecidas e que se estabelecem vedam-se os olhos para o passado histórico; atrofia-se a mobilidade; poda-se a motivação. E no transcorrer da existência fecha-se as portas para o eterno sonho: a liberdade. Não a liberdade uníssona dos “grandes” pensamentos universais, que reduz o mundo a uma jogatina capitalista apresentada por um suposto bem estar consumista eterno, mas aquela que nos permite entender como fora da democracia é possível produzir riquezas – o caso da China; ou como em nome da “liberdade” forjada nas abstrações imperialistas reduz-se um país a uma catástrofe sem fim, como ocorre no Iraque. Ou ainda, como para se manter o bem-estar de pequenos grupos elitizados transforma-se milhões de pessoas em meros coadjuvantes da história.
Se não é a liberdade, o fundamento maior que sustenta os esforços humanos para superar as incertezas da existência, penso que toda energia dispensada é vã – chegaremos, por fim, a lugar nenhum.
Mas, convenhamos, a liberdade não é também um paradigma? E sendo como tal, o jogo torna-se difícil, com já dito. Então, o que nos sustenta nesta louca aventura é a possibilidade da escolha – a autodeterminação, tão cara a existência humana.
Como se trata de um “exercício” vamos tomar de Foucault (2007) a seguinte construção para justificarmos definitivamente a necessidade de superação de paradigmas: “Essas formas prévias de continuidade (paradigmas), todas essas sínteses que não problematizamos e que deixamos valer de pleno direito, é preciso, pois, mantê-las em suspenso. Não se trata, é claro, de recusá-las definitivamente, mas sacudir a quietude com a qual as aceitamos; mostrar que elas não se justificam por si mesmas, que são sempre o efeito de uma construção cujas regras devem ser conhecidas e cujas justificativas devem ser controladas; definir em que condições e em vista de que análises algumas são legítimas; indicar as que, de qualquer forma, não podem mais ser admitidas”.