CONCIÊNCIAS: negra e afro
Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br
A lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003 institui oficialmente o Dia da Consciência Negra no Brasil. Junto com a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira nas escolas de ensino básico, pública e privada, esta lei simboliza uma conquista dos Movimentos Negros brasileiros. Para um país que tem uma população ancorada também na ancestralidade africana, com forte influência de saberes, conhecimentos, técnicas, cosmologia, arte, culinária, sistemas sociais e políticos, modos de vida etc, o termo “conquista” soa um tanto quanto estranho. Seu significado, no entanto, vai muito além do que, de imediato, pode-se imaginar.
Marcado por um passado relacionado à escravidão; subjugado pela História de caráter eurocêntrico, que relegou os povos afros a condição de subalternidade e “inferioridade” diante dos europeus e dos euros-descendentes; relegados à própria sorte com o fim da escravidão em 1888; excluídos das benesses do estado brasileiro – das “riquezas da nação”, a possibilidade de colocar a afro-descendência e as diferentes Áfricas no centro das discussões, debates e estudos, pode-se inferir como, de fato, uma conquista. Conquista que se projeta desde o primeiro contato com as terras tupiniquins ainda no século XVI, início da invasão e colonização lusa na América.
Este retrato traçado, embora não profundamente – o que possibilitaria novas compreensões da História dos povos afros no Brasil –, pretende mostrar que a luta em busca de “consciência” relaciona-se ao entendimento de que ela esta ausente. É preciso, então, criá-la.
Para nos inserirmos com mais propriedade neste debate, é preciso ressaltar que a luta pela criação de “consciência” relacionado aos povos afros no Brasil tomou forma nas décadas seguintes a abolição oficial da escravidão. O marco referencial é o surgimento da “imprensa negra” em São Paulo. Em 1915 começa a circular o primeiro jornal, O Menelick; em 1916 entra em circulação A Rua; em 1918, O Alfinete; no ano seguinte, é a vez de A Liberdade; em 1920 começa a ser publicado A Sentinela; em 1924 dois jornais entram em cena: O Getulino e o Clarim d´Alvorada. Todos com características semelhantes: foco nas questões dos povos afros e não cobertura dos grandes temas nacionais.
Passando pela Frente Negra Brasileira (FNB) criada em 1931; pela fundação do Teatro Experimental do Negro (TEM) em 1944; pela criação em 1954 da Associação Cultural do Negro (ACN); pela criação do Instituto de Pesquisa e Cultura Negra (IPCN) em 1975; pela criação do importante Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978; e por uma série de outras instituições, grupos e movimentos que caracterizam a luta dos povos afros em busca de “consciência”, as questões da afro-descendência e das Áfricas chegam aos nossos dias com alguns dilemas. Entre eles, dois destacam-se simultaneamente: primeiro, como desconstruir os mitos e os estereótipos da África e da afro-descendência, colocados, grosso modo, no patamar da mais primitiva condição humana – neste aspecto, pensa-se na necessidade de se re-significar a História; segundo, como estabelecer a partir desta Nova História, novas relações com as diferentes Áfricas na afro-descendência.
Tem-se percebido, no Mundo Afro, estas questões sendo tratadas por dois caminhos. O primeiro é a busca pela Mama África. Neste movimento estão assentados o pan-africanismo e o afrocentrismo. Fundamenta-se na “invenção” de Uma África anterior a tudo e a todos, primordial, senhora do céu e da terra, aquela que se encerra em si mesma. Na outra ponta, os “injustiçados de Clio” (deusa da História) – utilizamos, para este entendimento, o conceito desenvolvido por Clóvis Moura em As Injustiças de Clio (1990). Aqui, primeiro se vitimiza, depois busca retratar as injustiças provocadas pelo dominador, como destacou Alberto Pinto (2006). Este movimento, embora tenha perdido força nas últimas décadas, é referenciado por uma lenda nagô na Bahia que informa que os brancos conseguiram dominar o universo porque foram capazes de fazer suas obrigações, enquanto os negros descuidaram-se das suas, como relatou Muniz Sodré em A Verdade Seduzida (2005).
Assim, chega-se às manhãs do século XXI com uma pergunta: deve-se criar no Brasil consciências negras ou afros? Há diferenças? Independente de qualquer resposta, a baiana Patrícia de Santana Pinho, Phd pela Yale University, Estados Unidos, diz que “enquanto nos deixarmos convencer de que não há outro mundo possível, e que as utopias não passam de ilusões, continuaremos a agir de acordo com as circunstâncias e conveniências e assim o discurso de contestação continuará se perdendo em uma prática de conformação” (2004).
Paulo Robério Ferreira Silva
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas
pauloroberio@ig.com.br
A lei 10.639 de 09 de janeiro de 2003 institui oficialmente o Dia da Consciência Negra no Brasil. Junto com a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira nas escolas de ensino básico, pública e privada, esta lei simboliza uma conquista dos Movimentos Negros brasileiros. Para um país que tem uma população ancorada também na ancestralidade africana, com forte influência de saberes, conhecimentos, técnicas, cosmologia, arte, culinária, sistemas sociais e políticos, modos de vida etc, o termo “conquista” soa um tanto quanto estranho. Seu significado, no entanto, vai muito além do que, de imediato, pode-se imaginar.Marcado por um passado relacionado à escravidão; subjugado pela História de caráter eurocêntrico, que relegou os povos afros a condição de subalternidade e “inferioridade” diante dos europeus e dos euros-descendentes; relegados à própria sorte com o fim da escravidão em 1888; excluídos das benesses do estado brasileiro – das “riquezas da nação”, a possibilidade de colocar a afro-descendência e as diferentes Áfricas no centro das discussões, debates e estudos, pode-se inferir como, de fato, uma conquista. Conquista que se projeta desde o primeiro contato com as terras tupiniquins ainda no século XVI, início da invasão e colonização lusa na América.
Este retrato traçado, embora não profundamente – o que possibilitaria novas compreensões da História dos povos afros no Brasil –, pretende mostrar que a luta em busca de “consciência” relaciona-se ao entendimento de que ela esta ausente. É preciso, então, criá-la.
Para nos inserirmos com mais propriedade neste debate, é preciso ressaltar que a luta pela criação de “consciência” relacionado aos povos afros no Brasil tomou forma nas décadas seguintes a abolição oficial da escravidão. O marco referencial é o surgimento da “imprensa negra” em São Paulo. Em 1915 começa a circular o primeiro jornal, O Menelick; em 1916 entra em circulação A Rua; em 1918, O Alfinete; no ano seguinte, é a vez de A Liberdade; em 1920 começa a ser publicado A Sentinela; em 1924 dois jornais entram em cena: O Getulino e o Clarim d´Alvorada. Todos com características semelhantes: foco nas questões dos povos afros e não cobertura dos grandes temas nacionais.
Passando pela Frente Negra Brasileira (FNB) criada em 1931; pela fundação do Teatro Experimental do Negro (TEM) em 1944; pela criação em 1954 da Associação Cultural do Negro (ACN); pela criação do Instituto de Pesquisa e Cultura Negra (IPCN) em 1975; pela criação do importante Movimento Negro Unificado (MNU) em 1978; e por uma série de outras instituições, grupos e movimentos que caracterizam a luta dos povos afros em busca de “consciência”, as questões da afro-descendência e das Áfricas chegam aos nossos dias com alguns dilemas. Entre eles, dois destacam-se simultaneamente: primeiro, como desconstruir os mitos e os estereótipos da África e da afro-descendência, colocados, grosso modo, no patamar da mais primitiva condição humana – neste aspecto, pensa-se na necessidade de se re-significar a História; segundo, como estabelecer a partir desta Nova História, novas relações com as diferentes Áfricas na afro-descendência.
Tem-se percebido, no Mundo Afro, estas questões sendo tratadas por dois caminhos. O primeiro é a busca pela Mama África. Neste movimento estão assentados o pan-africanismo e o afrocentrismo. Fundamenta-se na “invenção” de Uma África anterior a tudo e a todos, primordial, senhora do céu e da terra, aquela que se encerra em si mesma. Na outra ponta, os “injustiçados de Clio” (deusa da História) – utilizamos, para este entendimento, o conceito desenvolvido por Clóvis Moura em As Injustiças de Clio (1990). Aqui, primeiro se vitimiza, depois busca retratar as injustiças provocadas pelo dominador, como destacou Alberto Pinto (2006). Este movimento, embora tenha perdido força nas últimas décadas, é referenciado por uma lenda nagô na Bahia que informa que os brancos conseguiram dominar o universo porque foram capazes de fazer suas obrigações, enquanto os negros descuidaram-se das suas, como relatou Muniz Sodré em A Verdade Seduzida (2005).
Assim, chega-se às manhãs do século XXI com uma pergunta: deve-se criar no Brasil consciências negras ou afros? Há diferenças? Independente de qualquer resposta, a baiana Patrícia de Santana Pinho, Phd pela Yale University, Estados Unidos, diz que “enquanto nos deixarmos convencer de que não há outro mundo possível, e que as utopias não passam de ilusões, continuaremos a agir de acordo com as circunstâncias e conveniências e assim o discurso de contestação continuará se perdendo em uma prática de conformação” (2004).
2 comentários:
Vejo com certo receio a procura pela "Mãe África" nos discursos engajados de muitos que se dispõem a discutir a formação do povo brasileiro. Alguns tem visões utópicas(e às vezes não passa disso) de uma realidade africana que desconhecem e apenas ouviram falar, mas passam a propagar desde então a imagem da grande África como o paraíso terrestre.
É um jogo difícil. Existe, de fato, uma linha tênue entre a necessidade de se positivar a presença africana no Brasil e não incorrer em egocentrismos, que, como já sabemos, tem provocado mais estragos do que benefícios.
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